Por que o modelo de gestão de resíduos do Japão é considerado referência mundial?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Marcello José Abbud

Conforme ressalta Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, quando o tema é gestão de resíduos sólidos, o Japão ocupa uma posição de referência global que vai muito além dos números impressionantes de reciclagem. Afinal, o modelo japonês combina tecnologia avançada, disciplina social, regulação rigorosa e uma cultura de responsabilidade coletiva pelo ambiente, que se manifesta em práticas cotidianas profundamente enraizadas na sociedade. 

Compreender o que torna esse sistema tão eficiente é útil não apenas como fonte de inspiração, mas como exercício para identificar o que realmente determina o sucesso na gestão de resíduos e o que pode ser adaptado ao contexto brasileiro. Ao longo deste conteúdo, veremos os pilares do modelo japonês e o que ele tem a ensinar para as cidades brasileiras.

A cultura da separação e a responsabilidade individual como base do sistema

O sistema japonês de gestão de resíduos começa na casa de cada cidadão, onde a separação é feita com um nível de detalhamento que surpreende visitantes estrangeiros. Dependendo do município, os resíduos podem ser separados em dez ou mais categorias distintas, com dias específicos de coleta para cada tipo e regras claras sobre como os materiais devem ser preparados antes do descarte, como lavar embalagens, remover tampas e dobrar caixas. O descumprimento das regras de separação não é apenas socialmente reprovado, mas pode resultar em recusa da coleta, com o resíduo devolvido ao gerador com um bilhete explicando o erro.

Conforme aponta Marcello José Abbud, essa cultura de responsabilidade individual pelo descarte correto não surgiu espontaneamente, mas foi construída ao longo de décadas por meio de educação ambiental sistemática desde a infância, comunicação clara e acessível sobre as regras locais de separação e uma relação de confiança entre a população e os sistemas públicos de coleta e tratamento. Quando o cidadão japonês sabe que o material que separou corretamente vai de fato seguir a rota adequada, a motivação para manter o comportamento correto se sustenta naturalmente ao longo do tempo.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

A tecnologia de tratamento e o aproveitamento quase integral dos resíduos

O Japão é um dos países com maior densidade de usinas de tratamento térmico de resíduos no mundo, operando centenas de instalações que processam a fração de rejeitos não recicláveis com recuperação de energia elétrica e calor para uso nas próprias instalações e nas redes locais de aquecimento urbano. Algumas dessas usinas tornaram-se marcos arquitetônicos e turísticos, como a usina de Maishima em Osaka, projetada pelo arquiteto Friedensreich Hundertwasser, evidenciando a integração dessas instalações à paisagem urbana e à identidade das cidades japonesas.

Segundo Marcello José Abbud, a cinza residual gerada pelo tratamento térmico dos resíduos no Japão é processada para remoção de metais e utilizada como agregado na construção civil e em projetos de aterramento em áreas costeiras, incluindo parte das ilhas artificiais da baía de Tóquio. Na prática, esse aproveitamento quase integral dos resíduos, desde a fração orgânica compostada até a cinza das usinas de incineração, é o que permite ao Japão operar com uma das menores taxas de disposição em aterros sanitários entre os países desenvolvidos.

O que o Brasil pode aprender e o que não pode simplesmente copiar?

A tentação de olhar para o modelo japonês e concluir que o Brasil precisa de mais disciplina e tecnologia é compreensível, mas simplifica excessivamente uma realidade muito mais complexa. O Japão construiu seu sistema ao longo de décadas, com investimento público consistente, capacidade institucional consolidada e um contexto cultural específico que não pode ser transplantado diretamente para outro país. As tentativas de replicar práticas japonesas de separação em municípios brasileiros sem o correspondente investimento em comunicação, infraestrutura e confiança pública tendem a fracassar rapidamente.

Na perspectiva de Marcello José Abbud, a lição mais valiosa do modelo japonês para o Brasil não é tecnológica, mas institucional: sistemas de gestão de resíduos eficientes são construídos com investimento de longo prazo em educação, comunicação, infraestrutura e confiança pública, não com medidas pontuais ou campanhas isoladas. O Brasil tem condições técnicas e regulatórias para avançar significativamente na gestão de resíduos, mas esse avanço exige consistência de políticas ao longo do tempo, independentemente das mudanças de governo e de prioridades políticas de curto prazo.

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