Levantamentos recentes mostram que estudantes brasileiros adotaram a IA, mas orientação sobre uso crítico, confiabilidade e aprendizagem ainda é limitada.
No Dia do Estudante, celebrado nesta terça-feira (11), uma questão ganha espaço no debate sobre educação e tecnologia no Brasil: como ensinar jovens a usar inteligência artificial sem transformar a ferramenta em substituta do próprio aprendizado? A pergunta deixou de ser apenas uma preocupação de especialistas, porque a IA generativa já está presente em pesquisas escolares, preparação para provas, produção de textos e esclarecimento de dúvidas. Um levantamento com mais de 2.400 estudantes brasileiros mostrou que 71% consideram que a tecnologia ajuda na compreensão dos conteúdos ou que seus efeitos dependem da maneira como é utilizada. Ao mesmo tempo, apenas 5% disseram ter recebido orientação formal das instituições de ensino, enquanto 40% afirmaram nunca ter recebido qualquer orientação.
O cenário revela uma contradição importante. De um lado, estudantes demonstram interesse e disposição para incorporar novas ferramentas ao processo de aprendizagem; de outro, escolas e cursos ainda precisam definir práticas que preservem autoria, pensamento crítico, capacidade de pesquisa e responsabilidade no uso de informações. A questão, portanto, não é simplesmente permitir ou proibir a IA, mas estabelecer critérios para que ela funcione como apoio ao conhecimento.
Estudantes já usam inteligência artificial, mas orientação ainda é o principal ponto de atenção
Os dados divulgados nesta semana ajudam a dimensionar a velocidade da mudança. Entre os mais de 2.400 estudantes ouvidos pela pesquisa da Opera, 52% apontaram a confiabilidade das informações como um aspecto que precisa melhorar nas ferramentas de IA. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, a preocupação foi ainda maior: 60% consideraram necessária maior confiabilidade e verificação das informações produzidas pelas ferramentas, enquanto 55% gostariam de receber explicações melhores e mais detalhadas.
Esses números são relevantes porque mostram que o próprio estudante percebe uma limitação que nem sempre aparece quando uma resposta produzida por IA parece convincente. Sistemas generativos podem apresentar informações incorretas, interpretações inadequadas ou respostas incompletas com uma linguagem que transmite segurança. Por isso, aprender a consultar uma ferramenta precisa vir acompanhado da capacidade de conferir fontes, comparar informações, identificar incertezas e compreender o raciocínio utilizado para chegar a determinada resposta.
Outro levantamento citado pela Fundação Telefônica Vivo reforça essa distância entre adoção e orientação. A pesquisa TIC Educação 2024 aponta que 70% dos estudantes do Ensino Médio já utilizam IA generativa em pesquisas escolares, mas apenas 32% afirmaram ter recebido orientação de professores sobre o assunto. Isso significa que uma parcela significativa dos estudantes pode estar aprendendo a utilizar essas tecnologias principalmente por tentativa e erro, sem necessariamente receber critérios pedagógicos para distinguir uma ferramenta de apoio de um mecanismo que simplesmente executa uma tarefa no lugar do aluno.
A situação também muda a responsabilidade de professores e escolas. Se a IA já está presente na rotina dos estudantes, simplesmente ignorar sua existência pode deixar uma parte importante da formação digital fora da sala de aula. O desafio passa a ser explicar quando a tecnologia contribui para compreender um conteúdo, quando pode induzir ao erro e quais atividades precisam continuar dependendo do esforço intelectual do estudante.
O uso da IA pode ajudar nos estudos, mas não substitui pensamento crítico
A discussão sobre inteligência artificial na educação não precisa ser reduzida à oposição entre tecnologia e ensino tradicional. Existem aplicações capazes de auxiliar estudantes na revisão de conteúdos, na identificação de dúvidas, na organização dos estudos e na preparação para avaliações. O próprio Ministério da Educação disponibiliza o aplicativo MEC Enem, que reúne simulados, exercícios, conteúdos interativos e um assistente virtual baseado em inteligência artificial capaz de ajudar na elaboração de planos de estudo e cronogramas personalizados.
O ponto central é que uma ferramenta educacional pode oferecer apoio sem eliminar a participação ativa do estudante. Uma explicação gerada por IA pode servir como ponto de partida para uma pesquisa, mas precisa ser confrontada com livros, professores, materiais didáticos e fontes confiáveis. Da mesma forma, uma sugestão de correção de texto pode ajudar a identificar problemas, mas não substitui a compreensão das regras de escrita nem o desenvolvimento da capacidade de argumentação.
Essa mudança exige também preparação dos professores. Em fevereiro, a Secretaria da Educação da Bahia publicou diretrizes para orientar o uso de IA na educação básica, destacando princípios como centralidade no ser humano, pensamento crítico, equidade e proteção de dados. No âmbito federal, o MEC criou um Sandbox Regulatório de IA na educação para testar e avaliar soluções tecnológicas sob supervisão, buscando identificar riscos, salvaguardas e boas práticas antes da formulação de políticas futuras.
O movimento mostra que a questão já ultrapassou o debate sobre ferramentas específicas. O Brasil precisa construir uma cultura de uso responsável da inteligência artificial, incluindo estudantes, professores, famílias, gestores e empresas de tecnologia. Isso envolve discutir privacidade, segurança, autoria, qualidade das informações e desigualdade de acesso, porque a experiência de um aluno com tecnologia pode ser muito diferente da de outro dependendo da escola, da conexão disponível e dos equipamentos utilizados.
Preparação para o futuro passa por letramento em IA e cidadania digital
A formação para o uso da inteligência artificial também está relacionada ao mercado de trabalho. Segundo levantamento citado pela Fundação Telefônica Vivo, o setor brasileiro de Tecnologia da Informação e Comunicação corresponde a 6,5% do PIB e 82% das empresas consultadas pretendem ampliar suas equipes nos próximos dois anos. Entre as oportunidades projetadas, 46% devem ser destinadas a profissionais em início de carreira, enquanto a inteligência artificial aparece como prioridade para 80% dos entrevistados.
Esses números ajudam a explicar por que o debate educacional não deve tratar a IA apenas como uma ferramenta para fazer trabalhos escolares. Jovens que entrarão no mercado nos próximos anos provavelmente encontrarão ambientes profissionais em que sistemas automatizados, análise de dados e ferramentas generativas serão cada vez mais comuns. Nesse cenário, saber escrever um comando para uma ferramenta será apenas uma parte da competência necessária; será igualmente importante saber avaliar resultados, questionar respostas, proteger dados e tomar decisões que não podem ser delegadas automaticamente a uma máquina.
O Ministério da Educação também vem estruturando iniciativas relacionadas ao tema. Em junho de 2026, uma portaria instituiu o EducaLab, laboratório voltado a dados, serviços digitais e inteligência artificial dentro do MEC, com a finalidade de apoiar inovação e avaliação de políticas educacionais. A Secretaria de Comunicação Social do governo federal também destacou iniciativas de educação crítica sobre IA, cidadania digital e pensamento crítico voltadas a professores e estudantes.
Para o cidadão, a principal consequência dessa transformação é que alfabetização digital já não significa apenas saber utilizar aplicativos, pesquisar na internet ou produzir documentos. O estudante precisa compreender como as ferramentas funcionam em termos gerais, quais são seus limites e como verificar aquilo que elas apresentam. Também precisa aprender que velocidade não é sinônimo de qualidade e que uma resposta pronta pode resolver uma tarefa imediata sem necessariamente produzir conhecimento duradouro.
A escola, portanto, ocupa posição estratégica. Quanto mais a inteligência artificial estiver presente na sociedade, maior será a necessidade de espaços em que estudantes possam aprender a utilizá-la com acompanhamento, discutir seus impactos e desenvolver autonomia para tomar decisões. O objetivo não deveria ser formar jovens dependentes da tecnologia, mas pessoas capazes de usar a tecnologia quando ela realmente acrescentar valor.
O debate deste Dia do Estudante deixa uma pergunta que continuará relevante nos próximos anos: o que significa aprender quando uma máquina pode responder quase instantaneamente a uma pergunta? A resposta passa menos pela proibição da inteligência artificial e mais pela qualidade da formação oferecida aos estudantes. Se a tecnologia pode pesquisar, resumir, explicar e gerar conteúdos, cabe à educação fortalecer justamente aquilo que não pode ser reduzido à simples obtenção de uma resposta: curiosidade, pensamento crítico, criatividade, responsabilidade e capacidade de verificar informações. Nesse sentido, preparar o estudante para a era da IA não significa ensinar apenas a operar novas ferramentas. Significa garantir que ele continue sendo capaz de pensar antes de aceitar, questionar antes de compartilhar e compreender antes de simplesmente copiar.
Fontes:
Folha de S.Paulo — Estudantes querem usar IA para aprender melhor, mas falta orientaçãoFundação Telefônica Vivo — Dia do Estudante: os desafios da inteligência artificial na educaçãoMinistério da Educação — Referencial de IA na EducaçãoMinistério da Educação — Inteligência Artificial na Educação BásicaMinistério da Educação — Sandbox Regulatório de IA na EducaçãoFundação Telefônica Vivo — Como tecnologia, IA e formação docente fortalecem a recomposição da aprendizagemFundação Telefônica Vivo — Uso da inteligência artificial na educaçãoCNN Brasil — Escolas usam IA na gestão e nas salas de aula, mas faltam regras formais
