O debate sobre o uso de recursos públicos na comunicação institucional do governo federal voltou a ganhar destaque com o cancelamento de uma audiência pública que prometia esclarecer pontos sensíveis. O encontro, que seria conduzido por duas comissões da Câmara dos Deputados, foi suspenso sem previsão de nova data, gerando questionamentos sobre os motivos da postergação. A expectativa era ouvir o ministro responsável pela pasta, que está no centro das decisões sobre os investimentos em publicidade oficial e estratégias de comunicação digital adotadas recentemente.
A audiência em questão vinha sendo aguardada por parlamentares e pela sociedade civil por tratar de um tema considerado essencial: a transparência na condução da política de comunicação institucional. A gestão desses recursos sempre esteve sob escrutínio, principalmente em períodos de polarização política. Com o crescimento do uso das redes sociais como canal direto entre governo e população, aumentam as dúvidas sobre os critérios usados para impulsionar postagens, a escolha dos veículos de mídia e o impacto real das campanhas financiadas com dinheiro público.
A política de comunicação do governo deve ter como foco o interesse coletivo, e não apenas a valorização da imagem da administração em exercício. A falta de esclarecimentos alimenta a desconfiança de que o foco das ações comunicacionais esteja desalinhado com as prioridades da população. Campanhas públicas sobre saúde, segurança, combate a fraudes e orientação sobre serviços essenciais são esperadas como parte da missão institucional da Secretaria de Comunicação, mas nem sempre se tornam visíveis para todos os cidadãos.
A ausência de uma audiência pública para discutir esses temas gera incômodo entre parlamentares que defendem a fiscalização rígida dos gastos e da finalidade das mensagens transmitidas em nome do Estado. Também se questiona se existe equilíbrio entre os recursos destinados a mídias tradicionais, digitais e comunitárias, ou se há uma concentração de verba em canais que favorecem uma narrativa política específica. O equilíbrio e a pluralidade são princípios fundamentais da comunicação pública, e sem transparência, esses pilares ficam fragilizados.
O cancelamento do encontro também levanta preocupações sobre o espaço que o Parlamento oferece para o controle social das ações do Executivo. Quando autoridades deixam de prestar esclarecimentos de forma pública, perde-se uma oportunidade valiosa de fortalecer a democracia. O diálogo entre o governo e os representantes da população deve ser contínuo, principalmente quando envolve temas que interferem diretamente na opinião pública e na percepção da sociedade sobre temas de interesse nacional.
A comunicação governamental é uma ferramenta poderosa que deve ser usada com responsabilidade, sobretudo em um cenário digital marcado por desinformação, fake news e polarização. O uso de impulsionamento de conteúdo pode ser legítimo, desde que orientado por critérios técnicos, transparentes e auditáveis. A falta de prestação de contas sobre esses critérios alimenta suspeitas e enfraquece a credibilidade das ações de governo. Sem um espaço de diálogo como a audiência cancelada, fica mais difícil promover o debate qualificado que o tema exige.
A sociedade precisa saber como os recursos públicos estão sendo usados para informar, educar e orientar os cidadãos. Em um país com milhões de pessoas vivendo em situação de vulnerabilidade, a comunicação estatal tem papel essencial na inclusão social, na defesa de direitos e na prestação de contas. O adiamento da audiência pública adia também a resposta a perguntas urgentes, especialmente sobre como o governo lida com o desafio de combater fraudes que atingem idosos e outras populações vulneráveis, como havia sido mencionado entre os objetivos do debate.
Mesmo com o cancelamento, a discussão permanece viva e continuará a ocupar espaço na agenda parlamentar e no interesse da sociedade. O tema não se encerra com o adiamento e deve voltar com ainda mais força, já que envolve diretamente a confiança da população nas instituições. A expectativa agora é que uma nova data seja marcada e que, quando acontecer, a audiência traga à tona os esclarecimentos que tanto se esperam sobre a política de comunicação institucional em vigor.
Autor: Zunnae Ferreira