O passado como argumento: Taiza Tosatt Eleoterio detalha o controle emocional no relacionamento abusivo 

Ethan Norcrest
Ethan Norcrest
Taiza Tosatt Eleoterio

Usar o passado de uma mulher como argumento em discussões, na leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, é uma forma de controle que costuma passar despercebida. Erros antigos, escolhas difíceis e situações já resolvidas voltam à conversa sempre que ela tenta colocar um limite. Reconhecer esse padrão em um relacionamento abusivo ajuda a separar a responsabilidade pelo que aconteceu do uso da culpa para silenciar. A informação e o acolhimento fortalecem a autoestima e ajudam a perceber que ter errado no passado não tira o direito de ser respeitada no presente.

O que significa usar o passado como argumento?

Usar o passado como argumento é recorrer a erros antigos, escolhas difíceis ou situações já superadas sempre que a mulher tenta falar de um incômodo atual. Em vez de conversar sobre o que aconteceu hoje, a discussão é desviada: “você sempre fez isso”, “depois do que você fez, não pode reclamar”, “lembra de quando você…”. O assunto presente fica em segundo plano, e quem tentou colocar um limite acaba se defendendo.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que, em um relacionamento abusivo, esse recurso funciona como uma forma de manter o controle da conversa, porque transforma qualquer pedido em prova de que a mulher não tem direito de ser ouvida. Não se trata de lembrar um fato, e sim de usá-lo como instrumento de pressão.

Como esse recurso aparece nas discussões do dia a dia?

Alguns exemplos ajudam a reconhecer o padrão. Uma mulher pede mais ajuda com as tarefas da casa e ouve que “já errou demais para exigir alguma coisa”. Outra fala que se sentiu desrespeitada e escuta que “quem tem esse histórico não tem moral”. Há ainda quem seja lembrada, diante de qualquer discordância, de decisões antigas, como um término anterior, uma dívida, um problema no trabalho ou uma escolha sobre os filhos.

Taiza Tosatt Eleoterio detalha que o padrão costuma ser sutil e se repete nos momentos de tensão, sempre que a conversa ameaça mudar o equilíbrio da relação. Com o tempo, a mulher aprende a evitar o assunto para não ouvir de novo a mesma lista, e o silêncio passa a ser parte da rotina.

Por que a culpa antiga ganha tanta força?

Todos temos episódios dos quais não nos orgulhamos. Quando alguém os retoma repetidamente, a culpa que já havia sido elaborada volta com força, como se nunca tivesse sido resolvida. A mulher passa a duvidar do próprio direito de reclamar: se errou, talvez mereça o que ouve.

Esse raciocínio é um dos mais custosos. Errar no passado faz parte da vida e não torna ninguém menos digna de respeito. Ainda assim, quando o erro é lembrado como justificativa para o tratamento atual, ele deixa de ser uma experiência de aprendizado e passa a funcionar como uma dívida que nunca termina. A dependência emocional pode agravar o quadro: quanto mais a pessoa se apoia na relação, mais difícil é contestar a história que lhe contam sobre si mesma.

Efeitos sobre a autoestima e a confiança em si

Ser lembrada constantemente dos próprios erros corrói a autoestima. A pessoa passa a se enxergar apenas pelos pontos fracos, desconfia das próprias percepções e hesita em tomar decisões, por medo de errar de novo e de ouvir a mesma cobrança. A confiança em si diminui, e o espaço para dizer não fica cada vez menor.

Esse desgaste, alerta Taiza Tosatt Eleoterio, costuma ser silencioso e, em algumas situações, pode fazer parte de um quadro mais amplo de violência doméstica, que inclui a violência psicológica, como a desqualificação constante. Reconhecer que a cobrança não é uma conversa justa, e sim um mecanismo de controle, é um passo importante para recuperar a segurança em si mesma.

Como reconhecer o padrão e buscar apoio?

Algumas perguntas ajudam a perceber: o assunto do momento é respondido ou desviado? O passado é lembrado para entender algo ou para silenciar? Depois da conversa, a pessoa se sente ouvida ou mais culpada? Quando a resposta aponta com frequência para a segunda opção, vale observar o padrão com atenção.

Taiza Tosatt Eleoterio lembra que buscar apoio não exige certeza absoluta nem decisões imediatas. Conversar com uma pessoa de confiança, procurar um grupo de convivência ou o serviço de acolhimento social da região e contar com acompanhamento profissional ajuda a organizar o que foi vivido e a fortalecer o empoderamento feminino. Cada mulher tem o seu tempo, e o acolhimento respeita esse tempo.

Errar no passado não tira o direito de ser respeitada hoje

Nesse sentido, usar o passado como argumento é uma forma de desviar a conversa e de manter a culpa viva, com efeitos sobre a autoestima e a confiança de quem a vive. Perceber o padrão ajuda a separar a responsabilidade por um erro antigo do uso desse erro para silenciar.

Ter errado no passado não tira de ninguém o direito de ser respeitada no presente. Taiza Tosatt Eleoterio frisa que o acolhimento e a presença de pessoas de confiança ajudam a recuperar a voz e a lembrar que toda mulher merece ser ouvida, com a história que tem.

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