Pesquisa mostra crescimento do trabalho em plataformas digitais e expõe o desafio de conciliar flexibilidade, renda, jornada e proteção social.
O trabalho por aplicativos deixou de ser apenas uma alternativa temporária para uma parcela dos brasileiros e passou a ocupar espaço relevante no mercado de trabalho. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 4 de setembro mostram que cerca de 2 milhões de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços no Brasil em 2025, o equivalente a 1,9% da população ocupada. O levantamento, baseado na PNAD Contínua, analisou atividades como transporte de passageiros, entregas e prestação de serviços gerais ou profissionais.
O dado mais importante, porém, não está apenas no número de trabalhadores. A pesquisa ajuda a responder uma dúvida cada vez mais presente no cotidiano: trabalhar por aplicativo representa uma oportunidade de renda ou revela uma nova forma de precarização do trabalho? A resposta encontrada pelo levantamento é mais complexa do que qualquer dos dois extremos. Há flexibilidade e possibilidade de geração de renda, mas também jornadas mais extensas, menor rendimento por hora e desafios relacionados à proteção previdenciária e às condições de trabalho.
Trabalho por aplicativo já faz parte da estrutura do mercado brasileiro
Em 2025, aproximadamente 1,959 milhão de pessoas estavam envolvidas em trabalhos por meio de plataformas digitais de serviços. Segundo os dados divulgados pelo IBGE, 1,8 milhão tinham a atividade em plataformas como trabalho único ou principal, enquanto 182 mil utilizavam esse tipo de ocupação como atividade secundária. O levantamento também mostrou que 38,8% dos trabalhadores atuavam exclusivamente por aplicativo e em apenas uma plataforma, indicando que, para uma parcela significativa, não se trata simplesmente de uma fonte ocasional de renda. (Broadcast)
A composição desse grupo também ajuda a entender o fenômeno. Os homens representavam 84,4% dos trabalhadores de plataformas, enquanto as mulheres correspondiam a 15,6%, e a faixa de 25 a 39 anos concentrava 47% dos profissionais. A maioria era formada por trabalhadores por conta própria, categoria que representava 86,8% dos plataformizados, enquanto empregados do setor privado correspondiam a 8,1%. Esses números mostram que o avanço das plataformas está fortemente associado ao trabalho autônomo e à reorganização de atividades que antes dependiam de relações mais tradicionais entre trabalhador, empresa e consumidor. (Business Week)
Outro ponto relevante é a razão pela qual os brasileiros entram nesse mercado. Entre aqueles que tinham as plataformas como atividade principal, 26,8% apontaram a flexibilidade de horários e dias como principal motivo. Outros 24,6% disseram não ter conseguido encontrar outro trabalho, enquanto 20,8% afirmaram que o rendimento era maior do que em outras opções disponíveis. A complementação de renda apareceu para 16,6%. O conjunto desses dados revela duas realidades simultâneas: para alguns, o aplicativo amplia autonomia; para outros, ele funciona como resposta à dificuldade de encontrar alternativas no mercado de trabalho. (Home)
Flexibilidade existe, mas a jornada maior muda a conta
A principal questão levantada pelos números do IBGE aparece quando a jornada de trabalho é comparada com a de outros profissionais do setor privado. Em 2025, os trabalhadores de plataformas cumpriam, em média, 44,7 horas semanais, contra 39,3 horas entre os demais trabalhadores ocupados do setor privado. São 5,4 horas adicionais por semana, mesmo considerando que a jornada dos plataformizados caiu em relação a 2022, quando chegava a 46,4 horas. (Acessa.com)
A diferença se torna ainda mais relevante quando se observa o rendimento por hora. O rendimento médio mensal dos trabalhadores de plataformas ficou praticamente no mesmo patamar do registrado entre os demais trabalhadores, mas a média por hora foi inferior. Os plataformizados recebiam, em média, R$ 16,20 por hora, enquanto os demais trabalhadores considerados na comparação alcançavam R$ 18,40, uma diferença de aproximadamente 12%. Isso significa que olhar apenas para o valor recebido no mês pode esconder o custo representado pelo tempo necessário para obter aquela renda. (Business Week)
Esse resultado ajuda a qualificar o debate público sobre aplicativos. A flexibilidade de escolher horários pode ser uma vantagem real, principalmente para quem precisa conciliar diferentes atividades, estudos ou responsabilidades familiares. Mas autonomia de horário não significa necessariamente jornada curta, especialmente quando a remuneração final depende da quantidade de horas trabalhadas e da demanda disponível.
Há ainda uma questão estrutural envolvendo a proteção social. O próprio IBGE classificou os indicadores como estatísticas experimentais e destacou que a pesquisa busca justamente compreender aspectos como informalidade, cobertura previdenciária, rendimentos e influência das plataformas sobre a jornada. O Ministério do Trabalho e Emprego também reconhece que o trabalho plataformizado representa uma transformação relevante nas relações profissionais e apresenta desafios para direitos trabalhistas e seguridade social.
O que os números significam para o futuro do trabalho no Brasil
O crescimento do trabalho por plataformas coloca uma questão que ultrapassa motoristas e entregadores: como o Brasil deve atualizar suas regras para uma economia em que aplicativos passam a organizar parte crescente da relação entre trabalhador, empresa e consumidor? A resposta não é simples porque existem interesses legítimos em lados diferentes. Trabalhadores podem valorizar a autonomia, empresas defendem modelos flexíveis de prestação de serviços e especialistas apontam a necessidade de garantir proteção social sem eliminar oportunidades de geração de renda.
O levantamento do IBGE é importante justamente porque substitui opiniões isoladas por dados. A pesquisa mostrou que quase 2 milhões de pessoas já estavam inseridas nesse modelo em 2025 e que, para 92,1% delas, as plataformas representavam o trabalho único ou principal. Também revelou que a jornada média permanece acima da observada entre outros trabalhadores do setor privado e que o rendimento por hora é menor. Esses elementos tornam insuficiente classificar o trabalho por aplicativo simplesmente como emprego tradicional ou como atividade informal ocasional. (Broadcast)
A própria metodologia da pesquisa foi ampliada em 2025. O IBGE passou a investigar também o trabalho secundário, plataformas de comércio eletrônico, quantidade de plataformas utilizadas, frequência de utilização e motivos para realizar atividades por meio desses serviços. Como se trata de uma estatística experimental, os resultados devem ser interpretados com cautela e poderão ser aprimorados nas próximas edições. Ainda assim, o levantamento cria uma base importante para acompanhar uma transformação que já afeta milhões de pessoas e consumidores.
Para o cidadão, a principal mensagem dos números é que a discussão sobre aplicativos não pode ficar restrita ao preço de uma corrida ou ao valor de uma entrega. Por trás de cada serviço existe uma relação de trabalho que envolve tempo, renda, custos, riscos e acesso à proteção social. O desafio brasileiro será encontrar um equilíbrio capaz de preservar a inovação e a flexibilidade sem transformar a ausência de alternativas em justificativa para jornadas excessivas ou proteção insuficiente. Nesse sentido, os quase 2 milhões de trabalhadores identificados pelo IBGE são também um retrato de como o mercado de trabalho brasileiro está mudando.
Fontes:
IBGE — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua)
