Parques temáticos historicamente construíram seu roteiro em cima de personagens de cinema e desenho animado, com jogos ocupando papel quase decorativo dentro desse universo. Esse cenário vem mudando, com franquias de games ganhando áreas dedicadas, atrações completas e até parques inteiros construídos em torno de um único universo de jogo, num movimento que reflete o amadurecimento do próprio mercado de entretenimento baseado em games e a força cultural que algumas dessas franquias já conquistaram.
De acordo com Richard Lucas da Silva Miranda, empresário do segmento de tecnologia, entender como essas parcerias funcionam ajuda estúdios a enxergar a própria IP como algo que pode existir para além da tela, desde que o universo do jogo tenha substância o suficiente para sustentar esse tipo de experiência física.
O que significa um jogo ganhar espaço num parque temático?
Ganhar espaço num parque temático pode significar coisas bem diferentes, de uma área temática decorada com elementos visuais do jogo até uma atração mecânica completa desenvolvida especificamente para recriar a sensação de estar dentro daquele universo. O nível de investimento e complexidade varia enormemente conforme o porte da IP e o interesse comercial do operador do parque.
Nem toda franquia de jogo tem potencial para esse tipo de adaptação. Jogos com forte identidade visual, personagens reconhecíveis e ambientação clara costumam ser os candidatos mais naturais, já que a experiência física do parque depende de traduzir elementos que já funcionam visualmente na tela para um espaço tridimensional que o visitante pode explorar fisicamente.
Nesse sentido, jogos de mundo aberto e jogos com narrativa forte e cenário bem definido costumam se sair melhor nesse tipo de adaptação do que jogos abstratos ou competitivos, cujo apelo depende mais da mecânica de disputa entre jogadores do que de um universo visual e narrativo que possa ser recriado fisicamente num espaço físico dedicado.
Como funciona a parceria entre estúdio e operador do parque?
Esse tipo de projeto normalmente nasce de negociação de licenciamento entre o detentor da IP e o operador do parque, definindo o quanto de controle criativo o estúdio mantém sobre como o universo do jogo será representado fisicamente. Alguns estúdios participam ativamente do design da atração, enquanto outros licenciam a marca e deixam a execução criativa majoritariamente nas mãos do parque.

Richard Lucas da Silva Miranda observa que esse grau de controle costuma ser o ponto mais sensível da negociação, porque uma atração malfeita ou pouco fiel ao espírito do jogo original pode prejudicar a percepção da marca entre os fãs mais engajados, mesmo gerando visibilidade e receita de licenciamento para o estúdio. Encontrar equilíbrio entre proteger a fidelidade criativa e permitir que o parque adapte a IP para a linguagem própria de uma atração física costuma exigir negociação contínua, não só um contrato assinado uma única vez no início da parceria.
Por que licenciar IP para parque exige cuidado além do visual?
Recriar fisicamente um universo de jogo envolve mais do que copiar cenário e personagem. Muitos jogos dependem de mecânica interativa, escolha do jogador ou progressão narrativa que simplesmente não existe na experiência linear de uma atração de parque, exigindo adaptação criativa que preserve a essência sem tentar replicar literalmente a experiência de jogar.
Segundo Richard Lucas da Silva Miranda, esse é o ponto em que muitas adaptações falham: tentam reproduzir a jogabilidade de forma simplificada, entregando uma versão rasa da experiência original, em vez de criar algo novo que capture a atmosfera e o universo do jogo por meio de uma linguagem própria do espaço físico.
Uma montanha-russa inspirada num jogo de corrida, por exemplo, não precisa simular literalmente o volante e a pista virtual. Pode, em vez disso, traduzir a sensação de velocidade e adrenalina que o jogo original transmite por meio de recursos próprios de um parque, como aceleração real, curvas físicas e efeitos sonoros sincronizados com o movimento do visitante.
O que esse tipo de parceria representa para a marca do jogo?
Uma atração bem-sucedida num parque temático expõe a marca do jogo a um público muito maior do que o alcançado por marketing digital tradicional, incluindo visitantes que nunca jogaram o título original, mas que saem da experiência curiosos para conhecer o jogo depois de vivenciar aquele universo fisicamente.
Richard Lucas da Silva Miranda considera que esse tipo de parceria representa um estágio de maturidade da IP, quando o universo criado para o jogo já tem força suficiente para funcionar como experiência independente, capaz de atrair público mesmo fora do contexto original em que a marca nasceu.
Para estúdios ainda distantes desse tipo de negociação, o aprendizado vale desde já: construir um universo consistente, com identidade visual clara e elementos memoráveis, é o que abre caminho para esse tipo de expansão no futuro, mesmo que o jogo em si nunca chegue perto de justificar uma atração própria dentro de um parque.
